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terça-feira, 1 de março de 2011

COMO DESPERDIÇAR A VERBA PUBLICITÁRIA DO PATRÃO

Certa vez um cliente da área de infraestrutura estava modernizando a sua marca e uma empresa “especializada” se encarregou das mudanças gráficas, a começar pelo logotipo. Num determinado momento o diretor que cuidava da área me chamou, perguntando o que eu achava da proposta entregue pelo “especialista”, pouco antes.

O desenho era bonitinho, mas muito mais apropriado a uma escola infantil. Evidentemente, como consultora, eu disse isso a ele. Aquele desenho nada tinha a ver com a vocação, os valores e a percepção daquela empresa. Ou seja, a imagem não tinha relação com o produto , tampouco com a atividade fim da empresa. Com certeza, os clientes, consumidores e stakeholders de modo geral dificilmente a reconheceriam naquela ilustração.

Lembrei-me desse fato quando li, há pouco, que a cerveja Devassa, da Schincariol, contratou a cantora Sandy como musa do camarote da marca. Confesso que fazia muito tempo que eu não via tanta miopia no marketing de uma marca quanto esta.

A notícia remeteu meu raciocínio diretamente para um filme mal dublado, quando a voz não casa com os movimentos da boca.
Sandy se preparou desde o berço para ter cara, jeito, voz e sorriso de santa. De tão santa ficou com expressão plastificada, engessada e insossa. Um estereótipo que chega a esconder o talento da moça, que até canta direitinho. A diferença é que agora ela está.... loira, para encarnar a personagem.

Sandy x Devassa soa mais falso do que uma nota de três reais. Muito provavelmente o anunciante quis provocar o contraditório, ou fazer uma gracinha com a verba do patrão.

Muitos dirão: ah!, mas funcionou, senão você não estaria aqui falando da marca. Sim, esse é um traço da comunicação da Schincariol, desde que lançou a Nova Schin: eles acham que espaço editorial é propaganda, mesmo quando negativo. Pelo jeito falta muito chão para que a Cervejaria se perceba efetivamente como marca ou, pelo menos, que trate seus produtos com mais seriedade. Isso é o que eu chamo de jogar dinheiro fora.

As reações no twitter foram rápidas: Só duas, pra ilustrar:
- Depois da cerveja sem álcool vem a Devassa, a cerveja sem sal;

- Agora que a Sandy é garota propaganda da Devassa vão chamar a Bruna Surfistinha pra fazer comercial de OB mini

JOHN GALLIANO FOI DEMITIDO. JÁ FOI TARDE!

Já falei sobre este tema, mas não resisto em voltar à vaca fria, depois da (merecida) demissão de John Galliano, imposta pela Christian Dior. Vou tentar mudar o viés, pra não ser tachada de repetitiva.

Não foram poucas as vezes que, depois de um diagnóstico, expliquei ao cliente que a empresa que ele dirigia estava precisando de um bom programa de comunicação interna. E também não foram poucas as vezes que recebi como resposta um sonoro “não”, sob o argumento de que a empresa operava no setor de serviços, eram cento e poucos funcionários, a maioria circunscrita num escritório blá, blá, bla.

Um deles foi mais explícito e do alto de todo seu vasto conhecimento sobre comunicação e marketing, disparou: jornalzinho interno é pra peãozada. Evidentemente, esse cliente durou pouco na agência.

De novo: a comunicação interna busca reforçar os valores da empresa; valores esses previamente combinados com os russos, ou seja, um acordo, de preferência selado e assinado, que exponha como a direção quer que a banda toque, de acordo com as suas crenças, valores e visão.

Se a Christian Dior fez a lição de casa, não se sabe. Galliano era uma estrela lá dentro e geralmente com os gênios ninguém mexe, até que.....eles façam uma tremenda lambança que afete profundamente a imagem da instituição que representam.

O fato é que Galliano foi demitido da Dior depois de desastrosas declarações sobre nazismo, racismo e outras coisas não menos desagradáveis. Foi preso, inclusive, e estava bêbado.

Diante desse quadro, eu diria que os gênios, as estrelas e darlings que permeiam qualquer empresa que se preze, deveriam ser os primeiros a serem orientados a seguir a cartilha da empresa: seus valores e visão no mundo. É simples: são esses caras que estão no foco das lentes e microfones. Eles são visados e instados a emitir opinião até sobre os mais singelos absurdos. Mas geralmente essa categoria só quer o bônus do sucesso e da fama; o ônus que fique com a instituição. A Dior mostrou, sabiamente, que não é bem assim que a banda toca.

Quando um sujeito assina um contrato e passa a carregar um sobrenome que o qualifica profissionalmente, como por exemplo, John Galliano, da Christian Dior, ele é percebido imediatamente como parte daquela organização. Desta forma, não adianta depois chorar pelo leite derramado e dizer que falou como pessoa física.

As relações profissionais estão intimamente atreladas à vida social e usá-la apenas quando se quer imprimir mais importância à sua existência não faz parte da brincadeira. A relação é bilateral, alguma coisa como: você usa o peso da minha marca e eu uso o peso da sua genialidade.

Esse acordo não pode mais ficar apenas no aspecto lúdico e etéreo da questão. Deve ser amplamente discutido, orientado e exaustivamente martelado com as ferramentas da comunicação interna, a fim de se evitar riscos como o que correu (e perdeu) John Galliano. Entre a genialidade de Galliano e a grana das clientes judias e asiáticas, a Dior ficou com a segunda opção e, certamente, marcou pontos importantíssimos junto a essas comunidades.

Ninguém precisa ser um John Galliano para se cuidar publicamente. Em festinhas corporativas, happy-ours, ou qualquer reunião informal o cuidado deve ser o mesmo de quando se está frente a frente com a presidência. Quando alguém retira um crachá no departamento de Recursos Humanos ou Gestão de Pessoas como querem os modernets, está se aceitando um conjunto de códigos que deveriam ser expressos no contrato de trabalho. Quando não estão, muitas empresas usam as velhas e boas cartilhas, outras nem chegam a tanto, mas o empregado, colaborador, funcionário ou qualquer que seja o nome adotado deve ter, apenas e tão somente, BOM SENSO e EDUCAÇÃO.

O comunicado da empresa que anuncia a demissão de Galliano reforça tudo o que eu disse acima: "Nós repudiamos em absoluto os comentários feitos por John Galliano, que são totalmente incoerentes com os valores da Christian Dior", afirmou o presidente da marca Sidney Toledano.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

COITADO DO(A) ASSESSOR(A) DE IMPRENSA DA GISELE BÜNDCHEN

Algumas pessoas perdem completamente a noção de tempo, espaço, coerência e bom senso quando chegam ao topo. Alguns se imbuem do direito de opinar sobre tudo e todos, como se a fama lhes conferisse o domínio sobre todos os temas, se lixando para a carga de preconceito, desinformação e ignorância que muitas de suas mensagens produzem.

Quando isso acontece, não tem assessor de imprensa que salve. O resultado é previsível: arranhões desnecessários na imagem da figura pública, e, em estágios avançados, revisão dos patrocinadores / anunciantes baseados no “bobajômetro; ou dos eleitores, do consumidor, ou quem quer que esteja suscetível às mensagens mal colocadas. Por isso, minha recomendação aos meus clientes é sempre categórica: fale apenas sobre aquilo que tem domínio absoluto. Na dúvida, fique quieto, ou quieta.

Normalmente isso acontece com jogadores de futebol, políticos e alguns empresários despreparados. Ultimamente, quem tem derrapado feio e além da conta no quesito “opinião” é a top brasileira Gisele Bündchen, cujas tiradas já começam a despertar a atenção da mídia – nesse caso internacional – sobre as bobagens que tem dito, em tom de verdades absolutas e inquestionáveis. Algumas delas:

"Não coloco esse veneno na minha pele." (sobre protetor solar)

"Algumas mulheres quando engravidam acham que podem se tornar um triturador de lixo. Eu tinha consciência do que comia, por isso só ganhei 13 quilos." (Sobre quilos extras na gravidez)

"Deveria ter uma lei que obrigasse as mães amamentarem seus filhos até os seis meses." (Sobre amamentação).

Depois destas (e outras não menos infelizes), o jornal New York Post saiu com a seguinte manchete: “Shut up, Gisele”.

Ao sair por aí vomitando regras tão cartesianas, Gisele demonstra, primeiro, uma falta absoluta de visão do mundo. Portanto, melhor seria fazer apenas o que sabe fazer de melhor: interagir com as câmeras fotográficas.

Isso apenas já estaria de bom tamanho. O mundo – e a Sociedade Brasileira de Dermatologia, por exemplo – já estariam satisfeitos sem a sua opinião sobre protetores solares.

Sobre mulheres que engordam na gravidez, demonstra uma tremenda alienação –que só reforça preconceitos e estigmas sobre as modelos – a respeito das condições de vida das mulheres comuns, que não têm nem um décimo das condições da modelo – genéticas e financeiras – para manter o corpitcho em ordem depois de nove meses carregando um rebento no ventre. Seria de bom tom que um assessor mais preparado inteirasse a top sobre as condições de vida das mulheres -- trabalhadoras e brasileiras --, muitas das quais mal têm dinheiro para comprar as vitaminas prescritas durante a gestação.

Gisele mantém e reforça a alienação ao desconsiderar, de novo, as condições físicas, emocionais e financeiras de mães que desmamam seus filhos antes dos seis meses de idade. Afinal, não são todas as mulheres da terra que podem carregar seus rebentos, pra lá e pra cá, acompanhadas de um séquito de empregados, e tirar o peito pra fora sempre que o garoto chora.

Apenas para lembrar, a grande maioria, a maioria esmagadora de mulheres trabalha fora, depende de creches, quando existe creche perto de casa ou trabalho, da benevolência dos chefes, entre tantas outras variáveis, depois que pariram suas crias. Amamentar ou sobreviver no campo profissional não é exatamente uma questão de escolha. E sobreviver no campo profissional, para grande parte das mulheres, significa sobreviver, no sentido lato.

Parafraseando a própria Gisele, eu acho que deveria haver uma lei que proibisse as celebridades de falarem tanta bobagem, exporem tanta ignorância, já que esse mal os assessores de imprensa não conseguem evitar.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A SAÍDA DE RONALDO – UMA VISÃO MENOS APAIXONADA

Esta visão é de quem opera (muito) com gestão de crise. Nada a ver com a paixão pelo futebol, a admiração pelos ídolos e a pança do jogador.

Ronaldo ficaria muito bem obrigado até o fim do seu contrato, não fosse o fiasco do jogo que decidiu sua participação na Libertadores, fato que ultrapassou o limite da paciência do torcedor (o efetivo consumidor). Afinal, ele já não fazia nada em campo há muito tempo, tendo se transformado numa espécie de RP de luxo do time.

A derrota para o Tolima tirou o véu cor-de-rosa que estava sobre os olhos do torcedor: a permanência de Ronaldo e Roberto Carlos, jogadores caríssimos, não evitou a derrocada; pelo contrário, expôs um time sem lideres, sem planejamento, sem jogadas. Apenas óbvio. Apenas produtos ruins, pelos quais o time pagava muito caro.

E contra um produto ruim, não há estratégia de marketing que sustente. Uma hora a casa cai. E a casa caiu para Roberto Carlos e Ronaldo, ambos cobrados até a alma pela torcida enfurecida.

Não entendo muito sobre jogadas de futebol, mas um pouco sobre marketing. O salário da dupla certamente impedia contratações que decidissem em campo; e ambos decidiam só fora dele: tudo ia bem institucionalmente. Mas o desempenho, aquele que decide jogo e leva título, nadica de nada.

A imagem da dupla ainda piorou depois, quando eles se recusaram a jogar a próxima partida, cada qual usando um conjunto de argumentos. Astros de primeira grandeza não admitem a crítica, a ira da torcida, a cobrança. Estavam alí basicamente para serem incensados o tempo todo, e viver nababescamente debaixo da marca forte chamada Corinthians.

Provavelmente achavam que a fama dos tempos de outrora os sustentaria sob quaisquer circunstâncias. Não deu. Tenho cá com meus botões que a saída de Roberto Carlos – na forma – foi a saída honrosa encontrada pelo Clube para se desfazer de um jogador com o qual mal podia contar. O salário dele deve pagar pelo menos uns dois craques que resolvem, com a metade do trabalho.

Claro que os astros ajudaram na capitalização. Atrairam patrocinadores, mais torcedores, etc e tal. Mas se no meio do caminho tudo isso não se traduzir em resultado, de nada adianta. E não adiantou. RC diz que está indo para Russia (um frio lascado, idioma difícil....) com “excelente proposta". Evidentemente ele não diria o contrário.

Acho também que a saída de RC, somada à reação da torcida acelerou os planos do Fenômeno, cujo interesse pelo jogo dentro de campo já é pequeno há muito tempo. Ele é empresário, dos bons, não está a fim de privar-se dos almoços fartos com os amigos nos Jardins, e tampouco de ficar sendo cobrado pela torcida. Foi-se o tempo. O jeito foi se aposentar, enquanto é tempo, porque já estava passando da hora.

Resumo da ópera: tudo ia tão bem, até que o (frágil) esquema mercadológico ruiu. Para todos: jogadores e Clube. Produto é produto, e se ele não funciona, não há estratégia que o sustente na prateleira.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

REDES SOCIAIS - POR QUEM ENTENDE

Redes sociais, um maravilhoso mundo novo? Nem tanto. Nem maravilhoso, nem novo.

Sobre o que falamos quando discutimos redes sociais? Nós falamos de gente, nada mais.Quando fazemos uma netnografia, nos “sentamos” na “sala de estar” das pessoas na internet com um caderno no colo, e observamos e escrevemos sobre seus hábitos no geral.

Quando fazemos uma pesquisa nas redes sociais, nós olhamos os hábitos de consumo das pessoas, o que elas compram e por quê, nada mais.
Elas compram motivadas por preço, qualidade, ou tendências? Nós olhamos seu comportamento como consumidoras, para ver suas necessidades, pensando em supri-las.

Quando nós fazemos uma campanha de seeding nós vamos atrás de formadores de opinião e lhes damos informações relativas aos nossos produtos, serviços ou marcas, para que eles espalhem a notícia, influenciando os consumidores.

E que tal uma campanha de propaganda nas redes sociais? Bem parecido, nós olhamos os canais de mídias sociais e escolhemos aqueles que melhor impactam nosso target e compramos espaço ali, para vender nossos produtos, serviços ou marcas.

Projetos de comunicação nas redes sociais, basicamente a mesma coisa. Você pode utilizá-los, vê-los como forma de achar e agir sobre o target, focando na apresentação de algo aos consumidores. Nesse caso você pode escolher os canais também, Twitter, Facebook, Youtube, blogs. Você escolhe, não faz muita diferença, já que as mecânicas de uso são todas bem parecidas. A , mágica reside na maneira como você lida com cada diferente canal para dizer as mesmas coisas.

Mas nada disso tudo é diferente de outras formas de vender, exceto por um detalhe: você pode escolher como vai nomear, pequeno ou grande: foco na individualidade das pessoas.

Nenhuma outra mídia pode oferecer tais ferramentas para um profissional de marketing ou comunicação. Nas redes sociais você pode colocar algo e observar aquilo indo, circulando junto ao target e ver o que ele pensa a respeito, e até mesmo ouvi-lo falando sobre aquilo.

O que nós fazemos nas redes sociais é olhar e tentar entender a motivação das pessoas na Internet de maneira a executar nosso trabalho, que é apresentar algum produto, serviço ou marca.Vamos encarar isso: que outra plataforma de comunicação te dá isso? Nenhuma outra.

Essa é a enorme diferença das redes sociais, você pode interagir com o target numa base individual se você quiser ou precisar, e ver o que ele pensa sobre seu produto, serviço ou marca e como ele reage à sua ação, e então você pode mudar seu discurso, se necessário, para atingir seus objetivos.

E, com essa alegação, nós completamos um círculo sobre essa verdade: redes sociais dizem respeito ao comportamento das pessoas, nada mais. Bem, nem tanto. Já que podemos influenciar aquele comportamento, nós podemos nos enxergar como formadores de tendências ou os reais influenciadores atrás das cortinas ou os evangelistas acima da massa ou qualquer outra maneira pela qual você queira chamar, certo? Bem, realmente, não.

Nesse ponto você deve estar começando a achar que nós vamos a lugar nenhum com essa conversa, ou que isto não está fazendo realmente qualquer sentido, mas apenas tergiversando sobre algo que eu, na realidade, não entendo de verdade.

Mas meu objetivo aqui não é falar um monte de “verdades”, mas ser provocativo sobre redes sociais, já que meu papel nesse teatro é começar e manter em movimento constante, uma discussão sobre as redes sociais e seu impacto como uma ferramenta de marketing e comunicação de massa.
Sabe, eu sou um Farmer, e meu papel nas agências onde atuo é o de achar novas maneiras de alcançar resultados atuando tanto dentro da agência como fora, dentro dos seus clientes. Eu procuro maximizar os resultados das ações e, ao mesmo tempo, encurtar o cronograma e o orçamento investido de maneira a rentabilizar todo o processo.

E, para fazer meu trabalho, eu preciso saber como o mercado das redes sociais age e se comporta, e essa é a razão pela qual estou propondo esta discussão: para saber o que você pensa sobre minhas ideias e teorias, e se você tem algo para dizer sobre isso tudo.


Por L.Cazarré (cazarremktcom@gmail.com)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CRISE NO RJ EXPÕE PARA O MUNDO NEGLIGÊNCIA BRASILEIRA

Que muitas empresas ainda relutem e demorem em implantar mecanismos de prevenção e gestão de crise, vá lá. Mas governos é inaceitável. Seja municipal, estadual ou federal. A tragédia no Rio de Janeiro mostra esses poderes estão absoluta e totalmente despreparados, mal assistidos e beiram a negligência.

O ministro Mercadante veio a público informar que em quatro anos, sim, caros leitores, em quatro anos, teremos um sistema de alarme de catástrofes. Em contrapartida, o prefeito de um município minúsculo da Serra no RJ conseguiu salvar 100% da população da cidade apenas com um serviço de auto-falante emitido de um carro em condições mais que precárias. A assessoria de Mercadante esqueceu de lhe buzinar na orelha que as chuvas de verão acontecem.....todo verão.

O governador do Estado, que adora posar de papagaio de pirata de políticos mais graduados (leia-se presidentes), mostra que não tem o menor preparo para crises dessa (nem de outras) natureza. Disse, por exemplo, que não é hora de críticas. Ah! então tá. É hora de críticas, sim, e é hora também de começar a absorvê-las. Cabral passou quatro anos fazendo gracinhas com o governo federal e agora não quer críticas? Os governantes, executivos e afins têm de começar a entender que a crítica é parte do processo democrático, ajuda a sanear, quando ouvidas com certa humildade. ele não foi eleito para ser aplaudido.

Não duvido se o número de mortos estiver sendo maquiado e sub-avaliado. Uma reportagem na TV, ontem, informava que um bairro inteiro, cuja população era estimada em 6.000 pessoas, foi totalmente dizimado.

Evidentemente, dezenas, talvez centenas ou milhares de pessoas ainda estejam debaixo da lama. Com tudo isto, o hospital de campanha só foi instalado quase uma semana depois da tragédia. Apenas ontem, mais de uma semana depois, o governo federal enviou 500 militares para apoio da operação.

Não são à toa as críticas que o País vem recebendo da comunidade internacional pela total falta de planejamento na área de prevenção e atuação nas crises. Sergio Cabral, que adora falar asneiras, deveria aproveitar esses próximos quatro anos de governo e....governar. Quanto aos outros poderes, que façam o mesmo, porque os últimos oito anos foram semelhantes a uma fanfarra de interior, alimentada por um megalomaníaco.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

UMA PÉROLA FABRICADA PELO FUTEBOL BRASILEIRO

Os orientais preconizam que as crises são oportunidades. Oportunidades para aprender poderia ser uma alternativa viável. Não é o caso do Flamengo. Não aprendeu nada com a crise do goleiro Bruno. Agora o protagonista é outro: Ronaldinho Gaúcho.

O jogador acaba de criar uma nova modalidade de entrevista coletiva: ele só responde o que quer e o que lhe convém. Clube e patrocinadores compactuam, por enquanto. Ricardo Boechat, âncora da Rádio Band News FM já deu o tom, logo pela manhã: “proponho um boicote a esta palhaçada”.

Evidentemente Ronaldinho sabe que fez um papel muito feio durante as negociações com times brasileiros para voltar a jogar no Brasil, depois de ser declarado na bacia das almas na Europa. Por isso, com as bênçãos do clube, dos patrocinadores e de seu irmão-agente-assessor de imprensa resolveu tripudiar mais um pouco (como se não tivesse sido pouco).

Ele resolveu (se é que ele tem capacidade e poder para resolver alguma coisa) que responderia apenas a perguntas pré-selecionadas. Ou seja, ele fala apenas o que lhe convém. Em termos práticos, esse é o pior caminho para tentar reiniciar um relacionamento com a imprensa brasileira. Ou fala ou não fala. Responder apenas o que quer pode ser o caminho mais fácil para ouvir o que não quer e não precisa nesse momento da sua carreira.

Muitos dirão que com o dinheiro que está ganhando não precisaria falar nada. Muito raso isso, porque na condição dele (não está jogando nada) a imagem é seu principal trunfo para manter quente sua relação comercial com patrocinadores, e ele vai precisar muito da simpatia da imprensa para continuar alimentando a aura de mito.

Ele começou mal negociando mal com os times brasileiros; continua mal infringindo regras do bom relacionamento com a imprensa e por tabela com a opinião pública. Certamente os erros iniciais estão virando uma bola de neve, e, novamente, a presidente do clube, Patricia Amorim não teve a devida firmeza para colocar ordem na casa. Os jogadores continuam fazendo flamengo de gato e sapato!! Nas crises, o papel da liderança é fundamental para estancar os focos de incêndio. Amorim mostra que a lição número 1 não valeu nada.

Coisas do futebol, que continua abrigando gente despreparada, cujo único sustentáculo é o prestígio. Patricias, irmãos agentes-assessores e faz-tudo, cartolas: o resultado é que a meca do futebol vai virando o cemitério dos aposentados. Mas enquanto imprensa e torcedores aplaudirem, muito dinheiro ainda vai rolar debaixo dessa ponte.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O QUE SERGIO CABRAL E O (EX) GOLEIRO BRUNO TÊM EM COMUM?

Educação rasa, acima de tudo e em primeiro lugar. Mas não é só. Além disso, em algum momento de suas vidas eles passaram a achar, erroneamente, que por estarem em posição de poder lhes seria permitido ultrapassar qualquer limite ético ou códigos de conduta sociais, mesmo que rudimentares. O mundo corporsativo também está coalhado desses tipos.

Cidadãos que ocupam cargos de grande visibilidade pública deveriam ter obrigação de entender os princípios da comunicação. E quando não sabem, devem procurar ajuda externa e seguir rigorosamente as recomendações dos especialistas. Estariam fazendo um favor a eles mesmos e à sociedade.

Dias antes de explodir na imprensa o assassinato de Elisa Samudio, Bruno declarou que “todo homem casado já tinha, em algum momento, dado umas porradas na mulher”. Esta frase infeliz e imbecil foi uma tentativa de defender o indefensável Adriano-Imperador, também jogador de futebol problemático, que tinha agredido a namorada.

SIMILARIDADE

Eis que ontem, não satisfeito em ter protagonizado o vexame de indicar publicamente um ministro sem autorização da futura presidente, Sergio Cabral, sem qualquer vestígio de polimento que a liturgia do cargo exige, declarou a uma plateia : "quem aqui não teve uma namoradinha que teve de abortar?".

Leitores, Sergio Cabral não estava na mesa de um boteco ou de sua casa com amigos. Ele falava a um grupo de empresários sobre.....sim, aborto. Não era uma conversa privada, onde eventualmente falamos coisas das quais nos envergonhariamos de dizer publicamente. Era uma missão oficial, um governador de Estado falando sobre um tema polêmico, sensível e extremamente delicado, a um grupo de empresários, durante o Exame Fórum - Rio de Janeiro - Oportunidades de Investimentos e Negócios.

Evidentemente não é minha intenção levar a discussão para o viés da moral ou religião. Primeiro porque padre nenhum pauta a minha vida, e, segundo, em minha opinião, o Vaticano é apenas um bom produto marqueteado, e como tal não tem legitimidade para legislar sobre o tema.

Existem foruns mais e melhor preparados para isso. Minha mais absoluta surpresa foi ouvir um tema dessa magnitude ser tão relezmente tratado por um Chefe de Estado, de quem se espera respeito e compreensão mínima das questões que cercam e impactam os cidadãos que o elegeram.

A frase do (ex) goleiro Bruno não foi tão chocante quanto a de Sergio Cabral porque, sabemos agora, trata-se de uma mente perturbada pela ascensão sócio-profissional: um menino pobre, cujas raízes familiares foram truncadas desde cedo, sem educação formal e de uma hora para outra com um salário que beirava meio milhão de reais por mês.

Ao contrário, Sergio Cabral, pelo menos aparentemente, teve todas as oportunidades do mundo para estudar, viveu num ambiente cultural intenso (proporcionado por seu pai, jornalista e profundo conhecedor de música popular).

Ou seja, apenas a arrogância e a falta absoluta de entendimento de sua posição na sociedade é que podem explicar um comportamento tão ralo e tão deselegante. A mensagem não verbal sobre as “namoradinhas que fizeram aborto” foi tão contundente que não deixa dúvida sobre seu comportamento machista, prepotente e despreparado.

Cabral poderia ter se livrado de mais um vexame se quieto permanecesse. Mais uma vez em menos de um mês ele dá mostras do quanto precisa aprender ainda para se comunicar em público.

Sergio Cabral deve estar sofrendo da síndrome do sucesso repentino (vem daí uma das semelhanças com Bruno) e para esse mal não tem remédio, exceto ser ridicularizado pelas costas, como tem sido às pencas.

Uma pergunta ainda martela minha mente: sentiram-se incomodados os homens presentes a esse encontro? Houve aderência de ideias? Prefeiro acreditar que não e que em pleno século XXI já existam homens que compreendem que as “namoradinhas que tiveram que abortar” sofreram traumas na maioria das vezes incuráveis e muitas delas não sobreviveram para contar a história, porque praticaram o aborto em clínicas clandestinas sem qualquer condição de higiene, por profissionais desquaificados e muitas vezes alheios à medicina. Grande parte das “namoradinhas que tiveram que abortar” o fizeram sozinhas, abandonadas à própria sorte, embora o produto do aborto tenha sido obra de um casal, um homem e a “namoradinha” (no diminutivo, evidentemente).

Eu espero, do fundo do meu coração, que a namoradinha de Sergio Cabral que teve que abortar possa ter tido melhor sorte (já que ele diz que “todo homem já teve uma namoradinha que teve de abortar. E até onde se sabe ele pertence ao gênero masculino).

Serginho Cabralzinho está se superando. Pobre do Rio de Janeiro com seus políticos infames. Aliás, os cariocas conseguiram eleger uma dupla imbatível. Apenas para dar nome aos bois em mais uma pérola da política carioca, numa reunião semanas atrás para tratar de um benefício que seria concedido à população de baixa renda, o prefeito Eduardo Paes pediu que fosse aplaudido. “Podem aplaudir, porque a gente gosta”, disse o prefeitinho. Tenho muita pena da assessoria desses caras.

O Rio de Janeiro continuia lindo, sim. E até por isso merece mais respeito de suas “autoridades”. Que o governador usasse desse linguajar em sua casa, na intimidade com seus pares, lá vai, afinal, a ignorância de alma não tem cura. Mas daí a achar que o Palácio Guanabara é o seu quintal vai uma grande distância. Haja media-training!!!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

CARLA CAMURATI TROPEÇA NA COMUNICAÇÃO

Profissionais em posição de liderança, com exposições frequentes na imprensa, ou aqueles que geralmente são consultados para opinar sobre suas áreas de atuação têm que ser treinados por gente especializada.

Treinamento, reforço, prática: fonte bem treinada garante que a mensagem chegue com nitidez, clareza e minimiza riscos. Em qualquer área, seja ela corporativa, artística, governamental, etc.

Esse preâmbulo foi para comentar a entrevista de Carla Camurati, presidente da Fundação Theatro Municipal, e que acompanhou por quase três anos a reforma do Teatro Municipal do RJ.

Parte do gesso do hall do teatro desabou ontem, ao final da premiação dos melhores do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Na entrevista Carla diz que o acidente ocorreu porque houve excesso de ruído, que reverberou de forma muito intensa, fazendo o gesso desabar.

Carla poderia ter dito qualquer outra coisa, menos isso, porque num teatro os ruídos, barulho e grande fluxo de pessoas são matéria-prima que o faz funcionar. Evidentemente ela não estava preparada para uma crise dessa proporção. Não foi treinada, possivelmente confiante de sua experiência à frente e atrás das câmeras.

Como se viu, não é suficiente. Treinamento, reforço e prática são essenciais para que se evite esse tipo de escorregão.

Não se concede uma entrevista no calor de um acidente sem preparação, sem bater bola com a assessoria de imprensa. Ela poderia ter dito que já determinou uma minuciosa apuração; que a empresa que realizou o serviço já foi acionada para explicar; que está aguardando o laudo da perícia etc, etc, etc. Foi precipitada e disse exatamente o jamais poderia ter dito, pois um teatro sem ruído não é teatro. Essa resposta seria aceitável para um templo, nunca para um teatro.

Como presidente da entidade e empenhada durante tanto tempo na restauração do Teatro Municipal do RJ, Carla deveria ter sido submetida com certa regularidade a media-training, ferramenta que treina pessoas como ela, executivos e governantes a se relacionarem com a imprensa ou outros públicos estratégicos, de forma a passarem a mensagem mais adequada para cada tipo de circunstância.

Mais uma vez, tudo foi pensado na magnânima obra de restauro, exceto na comunicação. Opsss, esqueceram também da qualidade do gesso!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

NA CRISE, NÃO SE EMPOLGUE. CABRAL JÁ APRENDEU.

Os últimos acontecimentos no RJ são realmente uma aula sobre gestão de crise. Dos dois lados: o que fazer e o que não fazer se a sua empresa estiver atravessando uma crise. Primeiro, faça do seu público interno um grupo de aliados; segundo, não se empolgue com o sucesso: fale e atue com moderação.

O governador do RJ, Sergio Cabral, estava indo muito bem até que.....escorregou. Não, não foi um escorregão, foi uma batida de frente com uma jamanta.

Empolgadíssimo com o sucesso das operações de combate ao tráfico de drogas nos morros cariocas, passou por cima de tudo e todos e indicou um nome para o Ministério da Saúde do governo Dilma. Sabe-se lá o que ela respondeu a Cabral, mas o fato é que ele saiu em disparada declarando em alto e bom som que seu Secretário de Saúde fora o escolhido, por sua indicação, como ministro da pasta. E mais: disse aos microfones que em nome da Presidente ele mesmo fez o convite e o secretário aceitou.

Ele apenas esqueceu de fazer o óbvio: combinar com os russos, como diria Garrincha, se vivo ainda estivesse. Como já se foi, diriamos nós que Cabral deveria ter tido a humildade (eita palavrinha difícil) de combinar com os caciques do seu partido -- PMDB -- que não é muito afeito a levar desaforos para casa.

Resumo da ópera: dia seguinte está a tropa de elite inteira desmentindo, e o secretário, que até então estava quietinho no seu canto, acabou com cara de tacho. Quantos espumantes não devem ter sido abertos durante a noite em que permanceu no ministério! Vamos lá, de novo: Na crise


- fale estritamente o necessário

- não superestime a vitória

- avalie o cenário

- a arrogância leva à solidão

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

CRISE NO RJ – UM ARSENAL DE LINGUAGEM VERBAL E NÃO VERBAL

O gol olímpico do governo do Rio de Janeiro foi marcado por um passe errado do adversário. Muito provavelmente articulações já vinham sendo amarradas para conter o poder do tráfico, sobretudo como parte dos esforços para realização dos eventos esportivos que se aproximam. Mas o tráfico resolveu testar seu poder e percebeu tarde demais que ele estava superestimado e adiantou o cronograma.

Copa e Olimpíadas já oferecem seu primeiro resultado positivo para a cidade do Rio de Janeiro. Uma pena que se tenha esperado um evento de repercussão internacional para libertar a população do tráfico de drogas, povo refém há quase 30 anos.

Os ataques à cidade deflagraram ações cinematográficas, parcerias inimagináveis entre poderes até então, e finalmente o apoio político e social fecharam o círculo que faltava para dar a força necessária para que se chegasse à retomada de áreas até então dominadas pelos bandidos.

Um exercício salutar nesse momento é fazer um paralelo com crises empresariais: se você não conta com o apoio do seu público interno as coisas ficam sempre mais difíceis.

A condução da crise está sendo permeada por atos simbólicos que reforçam os valores que se pretende perpetrar. Um dos mais visíveis foi o hasteamento das bandeiras do Brasil e da Polícia Civil do Rio de Janeiro no alto do morro, onde está sendo construído um teleférico, no Complexo do Alemão. Este ato foi marcado por um dos mais gritantes escorregões de comunicação subliminar, numa demonstração de arrogância sem precedentes da Polícia Civil do RJ, ao hastear sua bandeira ao lado da bandeira do Brasil. O ato, aparentemente simples, excluía as demais forças de repressão, que foram decisivas na execução do plano de retomada do Complexo do Alemão: Marinha, Exército, Polícia Federal, BOPE e Bombeiros. O vexame durou menos de meia hora, até que alguém de bom senso substituísse a bandeira da Polícia Civil pela bandeira do estado do RJ.

O comitê de crise não está economizando mensagens verbais e não verbais para reforçar a importância da ação em curso, e o hasteamento das bandeiras é uma das mais robustas destas manifestações. Outra ação bem planejada para reforçar todo trabalho, valores e missão da tropa, foi a apresentação do traficante Zeu, ao 16º Batalhão da Polícia Militar, nos moldes de um troféu de Fórmula 1.

O atrito entre polícias civil e militar ficou evidente durante esta apresentação, quando uma repórter pergunta ao policial que apresentava o traficante sobre a prisão de outro bandido. A resposta foi curta e incisiva: “não sei, isso é com a Polícia Civil”. Um back-dropp, a que tudo indica preparado às pressas, foi posicionado atrás do bandido apresentado como troféu, e evidenciava o dono da obra: Polícia Militar. Duas auxiliares da Polícia se esforçavam para manter o quadro na posição que renderia a melhor imagem.

Ainda no quesito comunicação, a imprensa também teve papel fundamental. Por meio dela as autoridades mandavam recados aos chefes do tráfico, motivava a população e esclarecia quem estava no comando a partir de então. A imprensa trabalhou intensamente para promover o efeito demonstração que as autoridades tanto necessitam nesse momento.

Houve, evidentemente, os costumeiros escorregões das coberturas ao vivo, quando repórteres e apresentadores têm que lidar com o inusitado, não contam com o conforto do teleprompter e o tempo adequado para as devidas produções. A tarimbada jornalista Leilane Neubert (Globonews), por exemplo, disse que pela primeira vez em tantos anos de exercício do jornalismo, vê a população participando intensamente, denunciando e auxiliando o trabalho das Polícias. Ela diz que antes predominava a lei do silêncio. Em outro momento, Leilane repete que “depois que a comunidade parou de dar apoio e cobertura aos traficantes....”

Que equívoco!!

Tão tarimbada e morando no RJ e não lembrou que até então o tráfico era o único poder instituído nos morros? Por quase três décadas o tráfico era o governo nas favelas: proveu serviços como transporte, auxilio em doenças, distribuíam até comida, em troca de absoluta obediência. O preço pago por quem abrisse a boca era a morte sumária. Quando essa mesma população viu-se amparada pelo poder público, o que até então não acontecia, ofereceu cooperação. Simples assim.

Em contraponto às várias oportunidades de querer jogar no colo da população a relação dos traficantes com as comunidades, registre-se aqui o comportamento corporativista da mesma Leilane e do repórter que registraram a prisão do condenado Zeu, cujo mais forte aposto para qualifica-lo era a participação do meliante na morte do colega de emissora Tim Lopes. A entrada do repórter na programação, e sua apresentação do bandido no ar foram catárticas.

Vale registrar a supremacia da TV Globo, via Globonews, na cobertura dos eventos que culminaram na histórica derrota do tráfico, pelo menos por ora, no RJ. A BandNews, que curiosamente fez uma cobertura exemplar no resgate dos mineiros do Chile, se limitou, neste evento, a boletins burocráticos no meio da programação normal, como se passasse receitas de bolo aos seus telespectadores. Isso pode ser explicado pela sua pequena presença no Estado, e portanto as equipes devem ser exíguas. O que não exclui o fato de ter deixado de dar notícia de qualidade para sua base de assinantes em nível nacional, já que poderia ter deslocado equipes de São Paulo para o Rio de Janeiro. Tempo teve para isto. Infelizmente não posso registrar a participação da RecordNews, porque não tenho essa emissora na minha grade de TV a cabo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

MELHOR ÀS VEZES É FICAR COM A BOCA FECHADA

É evidente que a população carioca, e todos os brasileiros, claro, querem saber o que têm a dizer as autoridades: governador, prefeito, e até o presidente, por que não?

Sinto informar: eles não sabem o que dizer. Não têm a menor ideia do que está acontecendo e estão catatônicos. O prefeito da Cidade Maravilhosa acaba de conclamar o povo a não se acovardar. Tentei uma tradução do termo: saiam às ruas e enfrentem os bandidos; façam o que nunca tivemos, nós os políticos, coragem de fazer quando jogamos a sujeira embaixo do tapete e fingimos que a cidade era, realmente, maravilhosa.

Nesse momento, o bairro da Penha é a imagem real de uma praça de guerra: BOPE e blindados da Marinha se aglomeram e a impressão é que andam em círculo. Só hoje foram mais 14 veículos incendiados e o dia está apenas na metade. E o prefeito vem a público pedir que a população não se acovarde. E tem mais: no meio do caos, dessa guerra insana, o prefeito completa dizendo que essa onda de violência não vai impedir a realização da Copa e dos Jogos Olímpicos.

Eu fico realmente chocada com a capacidade de pessoas públicas, políticos principalmente, de produzir pérolas como essa, em meio à guerra implantada pelos bandidos no RJ. Vou tentar traduzir essa também: povo da minha cidade, não importa o medo, desconforto, pavor, perdas e insegurança que vocês estejam sentindo nesse momento. Os grandes eventos vão acontecer de qualquer jeito, porque nós precisamos "vender" o RJ como principal destino turístico brasileiro. O resto é balela. Contamos com a ajuda das novelas das 21hs, das celebridades que certamente comporão as proóximas passeatas que terminam na praia, com todo mundo seguran do rosas vermelhas e se abraçando.

A incompetência dos governantes, que há décadas vêm fingindo que fazem e o povo fingindo que acredita, levou o Estado à situação em que se encontra. Décadas de corrupção e megalomania produziram esse resultado, que tudo indica, incontrolável.

O Rio de Janeiro parece ovo de passarinho: tem a casca muito fininha. A Cidade Maravilhosa é um pedaço de orla marítima. O que sobra depois dela tem cheiro de urina. São verdadeiros heróis os que vivem na cidade, criaram uma família e trabalham dia-a-dia em busca de uma vida melhor. No lugar de Eduardo Paes, eu não pediria que essas pessoas não se acovardem. Eu pediria que se protegessem em casa, pois fecharíamos o Estado para balanço.

Para nós, que acompanhamos tudo de longe, as imagens são avassaladoras. Prédios sendo evacuados no centro da cidade; 21 escolas e 12 creches fechadas, explosões que podem acontecer em cima, ao lado ou bem perto de qualquer cidadão de bem que mora na cidade do Rio de Janeiro. E vem o prefeito pedindo ao povo que não se acovarde. Será que prefeito, governador, parlamentares enfim, mandaram seus filhos à escola hoje? De onde saiu essa pérola de discurso, pedindo à população para não se acovardar? Evidentemente de algum gabinete cercado de seguranças.

Haja rivotril pra esses políticos, porque essa crise vai emendar com as chuvas do verão, e novos morros vão desabar sobre muitas cabeças. Mas isso parece não ter importância, porque o desabamento do Bumba já foi devidamente esquecido, juntamente com as pessoas que alí moravam, e tudo está pronto, à espera da nova tragédia.

Eu quis escrever um artigo sob o viés da comunicação. Não dá, porque antes de um plano de comunicação, é preciso que haja uma organização social: uma empresa, uma cidade, um país, por exemplo. Não foi possível, porque hoje o RJ não é nada disso.

E os políticos? Ora, os políticos: estão pensando nas próximas campanhas, ora bolas.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

VISÕES EQUIVOCADAS SOBRE A CRISE DE SILVIO SANTOS

Hoje o jornal O Estado de S. Paulo (caderno Negócios) trouxe uma matéria interessante assinada por Marili Ribeiro, primeira iniciativa clara da grande imprensa em dissecar a condução da crise no braço financeiro do grupo Silvio Santos. Marili é sambada na área, cobre assuntos de propaganda e comunicação com textos brilhantes, no jornal ou no seu blog.

O texto deixa claro – nas entrelinhas – que não existe profissional da área (gestão de crise) na equipe, liderada pelo próprio Silvio Santos. Como adiantei em post anterior sobre o mesmo tema, é o próprio SS que desempenha o papel. Previsível.

O publicitário Sergio Guerreiro declara na matéria que a entrevista de SS na Folha S. Paulo (a primeira depois da notícia do rombo, dias antes) teve tom “galhofeiro” e portanto foi inadequada. Discordo em gênero, número e grau. Por quê?

1- A colunista Monica Bergamo furou toda estrutura e pegou o empresário em casa, por telefone. Ele poderia ter se esquivado, dito que estava ocupado e, portanto, não atendido a repórter.

2- Atendeu e foi absolutamente espontâneo, usando de artifícios que o caracterizam há décadas na televisão. Estranho seria ler um SS totalmente sério, falando economês: o público e o mercado (a quem ele se dirigia na entrevista) não o reconheceriam e a mensagem teria um tom maquiado, falsificado. SS também não perdeu a oportunidade de fazer uma piada na entrevista publicada pela revista Veja com o paresentador. Portanto, nada com ele é por acaso. Ele desenha a estratégia e a executa.

3- O tom da entrevista confere credibilidade, passando aos interessados o recado de que o fato não o derrubou, mas estava, desde então, sob seu controle. E por isso mesmo ele usou o mesmo tom que o caracteriza, sem maquiagem ou malabarismos tecnocratas.

4- Isso mostra que o gestor tem que manter, mesmo durante a crise, valores, crenças e reforçar a missão da organização, mesmo que por vias indiretas e linguagem subliminar.

5- Guerreiro recomenda também a adoção da mesma postura do principal executivo da Toyota, que foi a público pedir desculpas após uma sequência de recalls em seus automóveis. Não podemos nos esquecer que o presidente da montadora demorou muito para adotar a iniciativa, e só o fez quando a situação já era insustentável. Ao contrário do Silvio Santos, que agiu prontamente. Além disso, o formato usado pelo executivo da Toyota é muito próprio da cultura japonesa, que não guarda semelhança com o comportamento empresarial brasileiro. Pelo contrário.

6- Mesmo sem o pedido formal de desculpas (não teria porque: ele adotou todas as medidas necessárias, disponíveis e cabíveis, até agora, para estancar a sangria do Banco), o Grupo SS fez veicular fatos relevantes em seus próprios canais e na mídia impressa.

7- As situações são completamente diferentes entre Toyota e Grupo SS. A Toyota estava colocando em risco vidas humanas e demorou para reconhecer o fato. O Grupo SS se colocou à disposição para promover o saneamento do Banco, não usou dinheiro público e colocou seu patrimônio em garantia.

Gestão de Crise não é uma ciência exata e nem tem ferramentas de prateleira. Cada circunstância requer uma textura, uma temperatura diferente um perfil de equipe difernte. A observação (atenta) de cada caso oferece legítimas oportunidades de aprendizado. E o titio Silvio ainda tem muita coisa a ensinar a muita gente.

O LIMITE DA (SUPER) EXPOSIÇÃO

Evidentemente eu não tolero qualquer viés de discussão que leve ao limite da liberdade de imprensa. Penso que as pessoas que defendem essa tese o fazem por total incapacidade de pensar em algo mais últil que justifique seus salários, e o tema os faz permanecer no centro das atenções – a meu ver uma espécie de psicopatia.

Esclarecido esse ponto, quero colocar em pauta a “qualidade” da notícia. Algumas aulas da faculdade de jornalismo estimulam o aluno a enxergar o que efetivamente é ou não uma notícia. Mas a velocidade dos fatos e as dificuldades estruturais das redações (pouca gente, arrogância e muitas vezes incompetência) tem distorcido a finalidade do jornalismo em alguns veículos: informar o leitor. Como eu leio de 3 a 4 jornais todo dia e muitas revistas por semana, concluí que essa premissa tem sido confundida com “publica essa matéria porque essa pessoa é legal”, ou “publica porque eu adoro o jeitinho dessa pessoa”, ou “publica porque todo mundo gosta”.

Funciona assim: as redações elegem um personagem e publicam qualquer besteira que o sujeito decla (sempre o mesmo). Às vezes muitos veículos ao mesmo tempo, com o mesmo personagem, forçando a barra para impor uma tendência de pensamento, ações etc. Tivemos a época da Xuxa e todas as respirações de sua filhinha Sasha, e todo esforço mímico da apresentadora em parecer um ser inanimado, uma boneca de louça assexuada e eterna viúva de Airton Sena (tão conveniente esse clichê !!).

Em menor proporção, mas não menos entediante, tivemos a era Surey, filhinha de Tom Cruser. O site globo.com fazia uma matéria sempre que a menina trocava de roupa, sorria, cortava a franja ou respirava.

Cá pra nós: que importância histórica, contemporânea, econômica, cultural ou seja lá o que for, tem para nós, brasileiros (imagino em nível mundial,mas tudo bem, quero ser condescendente) a respiração da filha de Tom Cruse, a ponto de publicar centenas de notinhas sobre a garota? Ou o sujeito que escrevia a respeito foi demitido da publicação, ou arrumou outro personagem mais interessante, porque a era Surey desapareceu, e o mundo não acabou. Ninguém percebeu.

Neste exato momento estamos na era Eike Batista. Eike mudou o cabelo; Eike disse que compraria o SBT, Eike, Eike, Eike..... Em que pese o fato de Eike figurar diariamente nas páginas econômicas, a maior parte das notícias é desprovida de apuração que dê consistência aos fatos: os jornalistas estão publicando qualquer coisa sobre ele: ou porque ele manda via assessoria de imprensa, ou porque liga diretamente para as redações, ou pelo simples exercício do repórter em usar a mesma fonte, porque é mais fácil e assim resolve logo a fatura e vai embora para casa ou para qualquer outro lugar que não a redação.

Eike Batista até que era uma pessoa elegante, antes do seu divórcio com Luma de Oliveira. Ficava na dele; ela era a virtrine do casal. Adorava os holofotes, afinal esse era o seu meio. Até aí, nada demais. Ela fez a festa de muitos paparazzi e os ajudou a pagar as contas.

Mas alguma coisa aconteceu depois do divócio, que mexeu muito com a cabeça de Eike. Sua elegância foi para o brejo. Na ânsia de aparecer a qualquer custo se tornou deselegante e chato. A útlima grosseria foi declarar, um dia depois de anunciado o rombo o Banco PanAmericano, que compraria o SBT. Evidentemente teve que desmentir no dia seguinte, o que tornou a situação mais bizarra.

E por falar em coisas bizarras, uma vez dei de cara com um post dele no twitter que me deixou catatônica. Era mais ou menos assim: “meus amores, vou sair agora, mas já com saudades; não consigo mais viver sem vocês” (recado aos seus seguidores na rede social).

Os repórteres de uma fonte só não questionam nada, publicam, seja qual for a baboseira da hora. Boa foi a resposta de Silvio Santos, que deve ter deixado Eike sem dormir até agora: quem? Eike Batista quer comprar? Quem é essa pessoa? Eike deve ter consumido uma caixa de rivotril com a evidência de que pelo menos uma pessoa o ignora solenemente. Mas ele já deve ter tomado providência para corrigir esse (gravíssimo) erro.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

MUITO BLA BLA BLA. NADA MAIS.

Eu ainda era foca numa revista especializada em propaganda (isso já vai mais de 25 anos) e já ouvia "especialistas" decretando o fim do rádio com a força da televisão. Essa discussão começou bem antes, logo que a TV surgiu no Brasil. Aos poucos todo mundo percebeu que ninguém engoliu ninguém. Canais de comunicação não morrem; o que há é substituição de tecnologia: a fita cassete, a máquina de escrever, (o fax ainda funciona em algumas atividades) e por aí vai...

Mas não é a opinião do Plinio de Arruda Sampaio. Cumprindo à risca a estratégia de manter o nome na roda, esta semana ele decretou o fim da televisão, que, na sua opinião, será substituída pelo twitter. Ele adorou a brincadeira, evidentemente. O que mais me espanta é que alguns veículos ainda cravam uma besteira dessa como pauta e dão o espaço tão almejado pela fonte. Menos Dr. Plínio. Tem tantas coisas mais importantes e sobre as quais o senhor conhece muito mais, por que ficar no raso?

Não entendo a ânsia das pessoas em querer matar uma coisa para que a outra possa entrar, se a própria dinâmica social tem nos mostrado o contrário: a infinita capacidade do ser humano em agregar, somar, adaptar-se a novos conceitos, sem, necessariamente, abdicar de velhos métodos, que ainda nos são confortáveis.

Lembro-me até com muito humor quando vi pela primeira vez meus filhos conversando -- via MSN -- com 30 amigos simultaneamente. Francamente nunca me passou pela cabeça que aquilo os faria abandonar o celular, os encontros nos "points" ou qualquer coisa que o valha. Espanto foi pela agilidade mental dos caras, a capacidade de se adaptar a uma nova midia tão rapidamente, sem abrir mão das demais que já utilizavam. Me deu até uma certa inveja (eu só aderi àquela mídia tempos depois: medo, vergonha de não saber mexer direito....coisa de gente da minha geração).

Não que o MSN não tenha conquistado os catastróficos de plantão. Sobre ele ainda caem críticas a despeito da redução das palavras, dos neologismos, abreviações "que vão acabar com a língua portuguesa", e os bla-blá-bla de sempre.

Ao modernissimo, mas chato pra xuxu, Plinio de Arruda Sampaio, garanto: o twitter não vai substituir a TV, o MSN não vai acabar com a lingua portuguesa etc e tal. O que vai acabar -- um dia -- é a paciência do povo brasileiro com políticos que insistem em subestimar nossa capacidade de entendimento, com discursos vazios e teses ultrapassadas. Essas sim, estão com os dias contados.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A CRISE DO PANAMERICANO

Ainda é cedo para apontar o futuro do Banco PanAmericano. Tudo indica que muita água ainda vai rolar debaixo dessa ponte. Mas um fato, que não surpreende, já está delineado: Silvio Santos não delegou a ninguém a gestão da grave crise que se abateu sobre suas empresas, e muito provavelmente sobre a própria família. Ele tomou para si a responsabilidade do saneamento do Banco e, sobretudo, da proteção – o quanto é possível nesses casos – da imagem institucional das demais empresas do grupo.

Beirando os 80 anos, por maior que tenha sido o tranco, o Sr. Abravanel retomou as rédeas do negócio. Sambado depois de tantas décadas diante da televisão, vem enfrentando o caos conforme as melhores práticas dos manuais de crise.

Não se escondeu. Escreveu de próprio punho um comunicado que está sendo veiculado em suas emissoras de TV. Deu entrevistas sem alterar o perfil que o caracteriza há tanto tempo: o bom humor, por mais que estivesse dilacerado. Não fugiu das perguntas inconvenientes, mas usou argumentos certos para não detalhar as respostas.

Segundo relato de um dos advogados que cuida do caso, ao sair de uma reunião pesadíssima, a primeira da qual participava com o apresentador, o encontrou na garagem do prédio dando autógrafos e tirando fotos com fãs. Evidentemente com aquele sonoro sorriso nos lábios.

EM CADA CRISE UMA LIÇÃO

Eu entendo que toda crise corporativa traz sempre uma lição embutida não apenas para quem está envolvido diretamente com ela, mas para o mercado como um todo. Poucas empresas, ainda, tomam o cuidado de traçar planos de contingência. Às vezes, basta observar e encarar o óbvio: enfrentar, identificar o risco e adotar medidas, que nem sempre são as mais simpáticas.

Nesse caso específico, o óbvio estava escancarado: a falta de habilidade dos gestores, ou pelo menos do principal: o presidente do Banco. A crise do PanAmericano mostra ao mercado de forma avassaladora que [na visão do controlador familiar] os interesses corporativos não podem se sobrepor aos interesses familiares.Fica evidente que as empresas são organismos dinâmicos e independentes e se movem de acordo com interesses do mercado e não de seus idealizadores. Tentar acomodar interesses pessoais às práticas corporativas dificilmente dá certo.

As empresas estão habituadas a adotar planos de contenção de riscos que abrangem conteúdo técnico específico: acidentes, logísticos etc. Quando se trata da proteção da imagem institucional o cenário muda radicalmente: a incidência é infinitamente menor. Muitos empresários adotam a condição “low-profile” como medida de proteção, achando que estão protegendo a Companhia e a marca. A sofisticação do mundo corporativo torna essa medida, senão risível, no mínimo inocente demais.

Identificar os riscos, aceita-los friamente e corrigi-los, independentemente dos interesses pessoais são medidas de contenção que foram ignoradas por Silvio Santos, em favor de interesses familiares. Esse tipo de bomba relógio fica incubada durante muito tempo, prontinha para ser detonada. E foi o que ocorreu no PanAmericano. Hoje os jornais estão recheados de razões para que não se mantivesse Rafael Palladino na presidência do banco, em face de suas (poucas) qualificações para o cargo. Dezenas de “fontes não identificadas” que falam hoje aos jornais sabiam disto. Só Silvio Santos não sabia? Essa informação saiu do nada? Nunca circulou nos meios financeiros restritos? Ok, papai-noel existe e coelhinho da páscoa também.

E OS ASSESSORES / CONSULTORES?

Esse cenário traz à tona outra questão importante: a participação de assessores e consultores nas restritas equipes dos altos executivos. Para que servem esses profissionais senão para orientar, apontar e identificar zonas de atrito e risco? Silvio Santos poderia ter ignorado o fato de ter um executivo desqualificado tecnicamente para um cargo de altíssima responsabilidade. Mas dificilmente o fato era ignorado por toda uma equipe de assessores que gravitam o grupo SS. Ninguém disse a ele? Por que? Medo de ferir suscetibilidades? E as auditorias, obrigatoriamente contratadas para analisar balanços? Ah! Mas eram contratadas só para auditar balanços. Ok, lá vem papai noel de novo.

Encaremos os fatos: falar a verdade, apontar um erro e identificar um risco nem sempre é notícia agradável ao executivo. A medida mais comum é, portanto, adivinhem? Claro, dispensar os serviços do assessor ou consultor, como queiram chamar.
E, evidentemente, entre perder um bom cliente, falar a verdade, cumprir a função essencial, melhor ficar no meio termo, o eufemismo. Eu finjo que assessoro e você finge que não é centralizador e só faz o que lhe manda a consciência (e a família, nesse caso). Numa analogia simplista: venda o sofá, lembrando a velha piada do homem que surpreende a mulher transando com o vizinho no sofá da sala e, em represália, vende o sofá.

Resumo da ópera: o que ocorreu no PanAmericano acontece ainda – e vai continuar acontecendo por um bom tempo – em milhares de empresas: andar na corda bamba ainda é a opção para acomodar interesses, ainda que se ponha em risco toda uma estrutura constituída, empregos e muito dinheiro.

Falar a verdade, se posicionar sem eufemismos e medo ainda é muito mal visto em grande parte das Companhias. O perfil psicológico da média do empresário brasileiro encara isto como afronta, falta de educação e desrespeito à hierarquia. Eu já perdi muitas contas porque abordei abertamente problemas que estavam debaixo do tapete. Alguns colegas atribuem a isto um comportamento “excessivamente emocional”. Mas eu sigo preferindo ser paga para fazer o que reza no contrato. Tem dado certo, apesar do preço eu resolvi pagar.

P.S. Escrevi este texto antes de ler a entrevista de Silvio Santos na revista Veja. A peça corrobora e reforça todas as considerações do texto. Uma peça para profissionais e aspirantes a gestores de crise.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

DEIXEI DE LER O CONTARDO

Combinei aqui de tratar sobre assuntos da comunicação. Sem querer entrar em questões semânticas, hoje vou mudar o rumo da prosa e falar sobre ética. Na Folha de S.Paulo de hoje tem um artigo de Contardo Calligaris que disserta sobre "terminar relações por meios eletrônicos" (e-mails, torpedos etc).

Eu lia regularmente o Contardo. A partir daqui, parei. Ele sustenta que os meios eletrônicos "facilitam" a difícil tarefa de por fim a um relacionamento. Esperava mais dele. Agora ele pareceu pequeno, rasteiro e superficial.

Essa premissa (da facilidade), se transportada para o mundo corporativo, tende a virar moda, ser normal, moderninho e vanguardista ser demitido por email, torpedo ou qualquer coisa que o valha, apenas porque "facilita" a vida de quem não gosta de encarar de frente as próprias escolhas. Afinal, quem recebe a mensagem é sempre quem foi preterido; portanto, pra que imprimir uma dose tão exagerada de respeito, se a relação ja acabou?

Há muitos anos, quando não havia email ou torpedo, fui demitida de uma empresa numa sexta-feira à noite, por telefone. Eu já estava em casa com meus filhos. Curioso que é uma cena inesquecível: eu estava brincando com as crianças, rindo, depois de uma semana dura, e de repente atendi o telefone. Bom, desnecessário o restante.

Vale abordar, sim, como fica cada vez mais permissivo a falta de coragem, a falta de respeito e a falta de um caráter mais firme para enfrentar aquilo que nos é desagradável. É com esse argumento, não com as mesmas palavras, que Contardo justifica sua "simpatia" pela forma.

Eu prefiro continuar estimulando meus filhos a encararem de frente as adversidades, assumindo plenamente as suas posições, sem subterfúgios, sem se esconderem, sem máscaras. Nesse caso específico, qualquer mulher que receba um email, torpedo ou qualquer coisa parecida vinda do Contardo, deve dar Graças aos Céus!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

NUNCA JAMAIS EM TEMPO ALGUM....

Em entrevista à TV UOL, o ex-governador de São Paulo, Claudio Lembo, do DEM, meio em tom de brincadeira, meio sério -- e é nessa batida que os maiores e melhores recados são passados -- disse que José Serra ganharia a eleição se telefonesse menos para as redações. No Facebook, uma repórter sambada de guerra, daquelas muito boas, explicou que Serra liga, sim, para as redações, sobretudo para pedir que derrubem matérias desfavoráveis. Liga para a redação, liga para o dono jornal.

Não é de hoje que os profissionais de imprensa reclamam da postura de Serra. Por arrogância, mal humor e.... porque liga para pedir que derrubem materias que não lhe são favoráveis. Que feio, tão tarimbado....

Quando vejo casos desse tipo, fico com pena do assessor de imprensa do sujeito. Ele não é o único, claro. Mas um político na sua posição já teve tempo suficiente para aprender que essa atitude é absolutamente inadmissível na relação entre fonte e profissionais de imprensa. É, disparado, a lição número 1 em qualquer media-training (treinamento que melhora a performance das fontes junto aos jornalistas).

Se você quer arrumar um inimigo para o resto da vida, adote esse método. É infalível. Pior que isso, só pedindo para ler a matéria antes de ser publicada. Reza a lenda, contada e decantada em todos os bancos acadêmicos, que certa vez uma fonte, depois de uma longa entrevista pediu gentilmente ao repórter para ler a matéria antes da publicação. Gentilmente, também, o repórter respondeu que, se ele não tinha confiança naquilo que dissera, ele, o repórter, tinha total domínio sobre o que ouvira. Ou seja, cada um no seu quadrado, fazendo bem o seu trabalho e ponto final.

Pedir para a chefia derrubar uma matéria ou pedir para ler o material antes da publicação é a pior forma de se relacionar com a imprensa, seja lá qual for o cargo que a fonte ocupa. Isso viola a liberdade de expressão, é tentativa de cercear o trabalho alheio e por aí vai.

Eu já me deparei com essa situação, mas o cliente era novo, nunca tinha falado com um jornalista da grande imprensa e a entrevista foi meio de sopetão, e não tivemos tempo para as preliminares. No fim da entrevista, sem qualquer prurido, o sujeito vira-se para o repórter, da revista Veja, e pede para ler antes. Eu acompanhava meu cliente, estava sentada ao seu lado e gelei. Respirei fundo, coloquei minha mão sobre o seu braço e disse, obviamente, na frente do repórter: fulano, essa prática não existe. Você falou perfeitamente bem sobre o que lhe foi perguntado e cicrano é competente o suficiente para colocar desta forma no papel.

Ambos entenderam meu papel naquela circunstência e não se falou mais no assunto (exceto depois, claro, quando o cliente passou por um extenso treinamento). Mas pelo jeito, Serra é recorrente.

Não é fácil estabelecer equilíbrio nessa relação, mas quando a base dela é o respeito mútuo, a coisa fica mais fácil. Evidentemente, nem sempre gostamos daquilo que lemos sobre nós, nossa empresa ou nosso partido político. Mas conviver com o contraditório também é uma ação política, necessária em todos os campos de relacionamento. Cabe às fontes e suas respectiuvas assessorias (quando estas são respeitadas como tal) discutirem as melhores práticas, as melhores formas e conteúdos. Para que jamais tenha que passar por esse vexame.

P.S. Sou profissional de comunicação e como tal esse comentário não tem qualquer cunho político partidário. Apenas técnico.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

ADOTEI MINHA MARCA DE CERVEJA

Eu não sou muito de cerveja; pelo menos não daquelas pessoas que chegam em casa cansadas e pegam uma latinha na geladeira. Mas aprendi, com um publicitário, que cerveja é uma bebida gregária e, assim, encaro perfeitamente uma rodada com amigos. Normalmente deixo a marca a cargo da minha companhia da ocasião, justamente porque não entendo muito da matéria.

Mas a partir de hoje já tenho uma marca e vou pedi-la sempre, independentemente do gosto da companhia da ocasião. Adotei a marca sem experimentar um só golinho: Stella Artois. O motivo não tem nada a ver com gosto, temperatura, cor, malte etc. Foi o filme comercial da Stella Artois que me conquistou, para sempre.

Não sei quem ou onde foi produzido, mas, por favor, se houver um publicitário entre os leitores, me ajudem para os devidos créditos. O que tem esse filme de tão especial que me fez adotar um produto com o qual nem tenho tanta intimidade? A resposta é o que ele não tem: bunda! Nem seios siliconados à mostra, que colocam a mulher como decoração de cenário, geralmente imbecilizada, como acontece na maioria dos comerciais de cerveja.

O filme não tem uma fala sequer. São dois homens num trem, um à frente e outro atrás de um balcão de bar. Um tenta tirar um copo de cerveja de uma bomba para o hipotético cliente, mas o balanço do trem o impede de fazê-lo com toda a reverência que o produto exige. Depois de algumas tentativas, ele sai do balcão, em seguida o balanço do trem cessa e ele finalmente consegue servir a cerveja com a devida reverência que ela exige (remete a um produto de excelente qualidade). O filme fecha num cenário externo – uma ponte sobre uma praia maravilhosa – onde uma parte do trem segue e o último vagão permanece parado, desconectado dos demais, no meio da ponte (o sujeito do bar parou o trem para servir a cerveja).

Sem uma bunda, um peito pelado, uma mulher vulgarizada. Deu o recado. Valorizou a marca e ganhou a minha preferência. Parabéns à agência, a toda ficha técnica de criativos e profissionais que participaram da campanha. Quando eu descobrir, volto aqui para os devidos créditos.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

AS LIÇÕES DO CHILE

Eu tentei acompanhar o resgate dos 33, mas não tenho o preparo, a infra e a energia do presidente Sebastián Piñera, do Chile. Vi o principal. No meio desse tempo, li pela internet inúmeras opiniões sobre a participação do presidente, sobretudo nas últimas 30 horas de resgate. Oportunismo foi um dos adjetivos que correram as redes sociais (twitter, facebook etc). Obviamente houve, mas, convenhamos, o sujeito transformou o Chile. Se fosse uma marca Ponto Com, hoje a Nasdaq elevaria sua cotação a trilhões.

Sebastián Piñera assumiu a responsabilidade que lhe é atribuída pelo cargo. Aproveitou a deixa e mostrou ao mundo, aos estadistas, aos empresários, executivos e grupos organizados o valor da palavra “liderança”. Aliás, atributo em falta em vários setores sociais em todo mundo, inclusive no Brasil, e talvez isso provoque certo incômodo.

É lugar comum o discurso fácil de grandes empresários propalarem sobre a importância de reter talentos, reconhecê-los, bla-bla-bla. Exercitar o mantra é mais difícil.

Por algumas vezes durante os vários momentos que tive oportunidade de assistir aos resgates, me veio à mente um fato que ficou marcado na minha mente e pautou, desde então, muitas ações que adotei como profissional de comunicação. Certa vez o teto de um dos supermercados da rede Pão de Açúcar ruiu. À época, quem dirigia o departamento de Relações Públicas da organização era Vera Giangrande, que morreu aos 69 anos, em 2000. Era seu papel, portanto, dirigir-se ao local do acidente e assim o fez. Vera era uma mulher elegante, firme, mas não perdia o olhar doce e fala ponderada. São atributos incomuns em mulheres em posição de poder.

Quando chegou ao local do acidente, ela foi imediatamente rodeada por repórteres, ávidos por uma declaração em nome da empresa. Com a serenidade de sempre, a delicadeza que lhe era inerente e a firmeza de uma rainha, disse a todos: “.... sei que todos vocês estão trabalhando e precisam de informações. Mas, primeiro, eu preciso saber como estão meus colegas e todas as pessoas feridas no acidente. Depois disso, eu volto aqui e conto a vocês”. Não foi exatamente com essas palavras, faz muito tempo, e eu vi a cena pela TV. Mas em síntese o contexto foi esse.

A atitude do presidente do Chile foi semelhante, respeitadas aqui as condições e proporções de cada acontecimento. Desde as primeiras horas depois da comunicação do acidente, ele tomou as rédeas da situação, sabendo que mina é da iniciativa privada e não tinha condições financeiras de assumir uma operação dessas proporções. Os primeiros dados dão conta de que o custo da operação foi estimado em 22 milhões de dólares. Previsivelmente, por conta dessas condições, a Companhia demorou a comunicar oficialmente o acidente, fato que poderia ter custado a vida de todos os mineiros e retardou ainda mais o período em que eles ficaram completa e totalmente sem comunicação com o mundo exterior. Covardia, descaso e negligência em nome do dinheiro. Lamentável, mas comum no mundo corporativo.

Terminado o resgate, certamente alguns cineastas vão transformar a tragédia em filme, a maioria dos mineiros deve voltar à vida aos poucos e, se eu militasse na área acadêmica, criaria uma disciplina nos cursos de administração, marketing e comunicação. A matéria chamar-se-ia “As lições do Chile”.

Mas por que uma disciplina e não uma aula, uma palestra? Porque seria muito pouco. Se alguém se dispuser a reunir todo material publicado, pesquisar a fundo, entrevistar envolvidos, familiares e os próprios mineiros, saberá que um curso será mais adequado. O que houve naquele pedaço do Deserto de Atacama representa muitas, mas muitas lições importantes para o mundo corporativo: trabalho em equipe, solidariedade, liderança, realização e, finalmente, celebração. Tudo ao mesmo tempo tudo junto, com perdão pelo trocadilho. Ao final do resgate, Piñera resgatou outros valores, para qualificar o grupo: companheirismo, coragem e lealdade. Atributos em franca extinção em vários setores.

Não conheço tão profundamente quanto deveria a economia, a sociedade e a história chilena. Mas sei, pelo menos, que eles estão muito à frente do Brasil, em vários aspectos. E talvez a trajetória de Piñera como empresário de sucesso no Chile explique sua participação no histórico resgate. Ele sabia exatamente qual a extensão da sua responsabilidade. E sabia que poderia tirar dividendos dali, se investisse numa operação vitoriosa. Não hesitou em aceitar ajuda externa e dividir os louros da vitória. Enfrentou esse desafio como deve ter enfrentado centenas de desafios em sua trajetória como empresário (ele tem participação em linhas aéreas, emissoras de Tv etc).

Piñera tirou, sim, dividendos políticos importantes da situação. Mas ele foi um grande líder. E não nos esqueçamos de que ele não tem tanta intimidade com o cargo. Tornou-se presidente pouco depois da tragédia provocada pelo terremoto que arrebatou parte do País no começo do ano.

Há de se destacar, também, o papel da esposa do presidente, que permaneceu com ele, ininterruptamente. Ambos não arredaram pé da boca do poço aberto que trouxe de volta à vida os 33 mineiros. Eles estavam, sim, cumprindo uma missão oficial. Mas a cumpriram com maestria. E, diferentemente da maioria de seus pares mundo afora, nela não vi um único traço de arrogância. Vi emoção, empenho, dedicação absoluta, motivação. Se fosse por pura vaidade e apenas oportunismo a primeira dama não estaria por mais de 30 horas com a mesma jaqueta. Sim, mulher observa esses detalhes. Ela sabia mais do que ninguém que as imagens corriam mundo. Retocou o batom, sim, mas com todo direito. Ficou ali, com capacete na cabeça quase 30 horas. Poucos líderes conduziram uma crise tão magistralmente. Mostrando a cara, se expondo, apoiando, liderando na verdadeira acepção da palavra. Trouxe a tona não só 33 mineiros soterrados, mas conseguiu aquilo que perseguem todos os lideres do mundo, políticos e empresariais: preservar, valorizar, exortar e ampliar positivamente a sua melhor marca.

Na disciplina que eu criaria para aspirantes do mundo corporativo, eu destacaria uma aula em particular: a força de um líder. Os bastidores dessa história só o tempo contará. Mas por enquanto, Piñera mostrou ao mundo como conduzir uma crise, e como valorizar a marca diante dela.