Nem precisa trabalhar com comunicação para saber que o tempo, senhor da razão, se encarrega de abrir a cortina e mostrar os fatos. Sim, deculpem-me a insistência, mas o caso Dunga x TV Globo é uma aula de comunicação corporativa.
Depois de ditar as regras do jogo na Copa anterior e promover o maior bundalelê disciplinar que um evento desta envergadura já assistiu, a TV Globo achou que seria fácil repetir a dose embaixo das barbas de Dunga. Matéria publicada há pouco no UOL joga um pouco de luz sobre a birra que vem sendo travada entre o técnico e a emissora de TV. Segundo o UOL, a TV Globo teria negociado diretamente com Ricardo Teixeira uma entrevista exclusiva com alguns jogadores, logo depois da partida de domingo, contra a Costa do Marfim.
Desconhecendo o gênio e o poder do adversário, a Globo comete erro estratégico. Aliás, todos erraram. Inclusive o Teixeira, que, tentando usar o poder a ele conferido, passa por cima da autoridade do Dunga e se compromete com algo que não lhe caberia se comprometer. Isso chama-se choque de lideranças.
Se Dunga cedesse, nunca mais retomaria as rédeas do jogo, com perdão do trocadilho. Se a TV Globo não tentasse, não estaria cumprindo seu papel no esforço de reportagem. Depreende-se, portanto, que todos estejam certos. Sim, apenas os métodos foram errados.
Vale salientar, nesse caso, como eu descrivi no post anterior, a postura errática do único profissional que poderia contemporizar a situação: Rodrigo Paiva, o assessor de imprensa, diretor de comunicação da CBF. Paiva já tinha, muito antes dessa confusão, definido seu lado de apoio (outra lambança recorrente em grande parte dos assessores de imprensa). O lado que ele escolheu apoiar foi a imprensa.
Definitivamente, ele não está lá para isto. Deixando transparecer suas preferências em detrimento de apresentar soluções e atender plenamente seu cliente, Paiva só joga mais lenha numa fogueira que está longe de ser apagada.
Quando profissionais de comunicação treinam executivos para melhorar seus relacionamentos com a imprensa (media-training), a lição número 2 é: não imponha suas posições de cima para baixo. Ou seja, não peça espaço ao dono do jornal; não peça cabeça de repórter à chefia só porque é amigo do editor etc e tal.
A TV Globo, por desconhecimento ou malandragem, fez justamente o contrário e isso explica a entubada que levou, carregando consigo Ricardo Teixeira e os chiliques do Paiva, em reprovação à atitude do Dunga.
É esse o resultado quando se lidera pelo poder e não pela autoridade. Paiva poderia, desde o princípio, ter cumprido seu papel de mediador entre as duas partes. Mas ele não entende disso e preferiu a via mais fácil, que foi ficar do lado dos colegas. Ricardo Teixera poderia ter ratificado o poder conferido ao Dunga e ter tentado, ele mesmo, negociar a pendência. Dunga poderia ter sido menos rancoroso, administrar a questão com o cérebro em vez de usar o fígado, e assim ouvir as bases e ceder um pouco.
A truculência, arrogãncia, falta de conhecimento e rancor, respectivamente nessa ordem TV Globo, Ricardo Teixeira, Rodrigo Paiva e Dunga poderiam ter nos livrado disso. A imagem de todos agradeceria, e suas marcas, idem.
A lição que fica para a próxima Copa é a necessidade mais que urgente de se colocar gente competente para tocar esse barco. O jeito Paiva é está fadado ao fracasso há muito tempo, porque contempla apenas um lado da questão: o da imprensa. Assessores de imprensa não existem mais há muito tempo. O que existe é gente que entende de comunicação como um todo, que saiba mapear eventuais zonas de conflito, apresentar soluções, ser disponível (e não amigo) e enfrentar os conflitos com técnica. Enfim, atribuições que estão muito longe dessa equipe.
terça-feira, 22 de junho de 2010
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