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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Netinho e Pernambucanas: tiro no pé

Dois fatos muito sérios nos convidam a repensar a forma e conteúdo da comunicação em empresas e instituições de qualquer natureza.

O primeiro é a venda de sutiãs com bojo (enchimento de espuma que imita volume dos seios) nas lojas Pernambucanas, com personagens licenciados pela Disney, para meninas de seis anos de idade. A notícia foi publicada ontem, na Folha de São Paulo, por Monica Bergamo. As empresas não se pronunciaram.

O segundo é a criação da Comissão Municipal de Defesa da Mulher, proposta pelo vereador Netinho de Paula (que, entre outras coisas, foi acusado em 2005 de espancar a própria mulher e depois de agredir uma Comissária de Cia Aérea).

Mas o que tudo isso tem a ver com comunicação? Tudo. Quando uma empresa tem um departamento de comunicação organizado e competente alinha a comunicação às estratégias da empresa, que por sua vez, recomenda-se, estejam alinhadas à cultura e valores vigentes. É para isto, também, que se mantém um departamento de comunicação ou consultorias.

Foi extraordinário assistir às manifestações imediatas sobre os dois casos, nas redes sociais, sobretudo no Twitter. A marca Pernambucanas foi pisoteada, arrasada, jogada na lama. O episódio remeteu imediatamente a uma crise anterior, onde a Rede foi acusada de usar trabalho escravo (mão-de-obra boliviana) na confecção de roupas para as lojas.

O caso Netinho é praticamente uma piada pronta. No Twitter, internautas se encarregaram de lembrar todas as confusões nas quais o vereador se meteu nessa área. Aqui, me parece mais um caso de extrema ingenuidade: é evidente que as pesquisas apontam que sua imagem foi duramente atingida depois que foi acusado de agressão pela ex-mulher. Portanto, seria lógico apoiar uma causa dessa natureza, visando “neutralizar” a baixaria. Ele apenas se esqueceu de que o eleitor está mais maduro, mais informado e não se deixa levar pelo canto da sereia, em que pese o contingente enorme de pessoas que ainda vota nele.

No caso da Pernambucanas fica a impressão de negligência e intenção de lucro a qualquer preço, já que a empresa não respondeu aos jornalistas; não veio a público explicar seu posicionamento (se é que ela tem algum). Vale lembrar que circulou informação de que os sutiãs com bojo para meninas de seis anos foram recusados nos mercados europeus e americanos, portanto, vale perguntar, e perguntar não ofende, cadê o marketing da empresa?

No caso Netinho, fica a impressão de que, se ele tem uma assessoria, não dá muita bola a ela. Porque é impossível que alguém com dois ou mais neurônios, não o tenha alertado que a iniciativa de criar uma Comissão de Direito da Mulher seria, no mínimo, um tiro no pé.

Como se vê, as duas crises poderiam perfeitamente ter sido evitadas, se aspectos importantes da cultura, valores e visões sociais fossem considerados. Nenhum dos dois ouviu ou foi informado por gente competente sobre as consequências de atos impensados. Quem paga é a marca.

4 comentários:

Adriano Berger disse...

Bem Silvana, as Pernambucanas devem ter se inspirado naquela historinha, cujo desfecho eu vejo diferente daquele que a usam: a fábrica de calçados manda dois profissionais examinarem o mercado indiano para analisar a viabilidade de se comercializar sapatos por lá, ao que um disse ser inviável, pois lá só usam chinelos de dedo. Enquanto o outro disse que o mercado estava virgem e era promissor, pois lá não há concorrentes para vender calçados fechados...

Ora, há de se analisar a cultura de cada povo para lançar qualquer coisa. Se pensarmos que no Brasil as meninas começam a vestir-se cada dia mais cedo como adultas; que as adultas investem cada dia mais dinheiro em plásticas e cosméticos; e que criança imita adulto, e no Brasil esse processo está bem avançado... chegamos à conclusão de que o sutiãs com bojo pode ser uma solução temporária para quem quer ter belos seios desde pequenas... por que não?! Um nicho em franco crescimento com alto poder de influência e consumo, mesmo que precocemente estimulado e na contramão dos princípios da boa educação. É o capitalismo sem pudor em que vivemos.

Aliás, muita coisa que já não se vende mais nos EUA, aqui no Brasil ainda é altamente lucrativo, como os adoçantes de Aspartame e os de Ciclamato e Sacarina sódica (a Coca Zero, por exemplo). Aqui vale tudo, é o eldorado dos oportunistas...

Agora sobre o Netinho, não sei o que é mais lamentável. Depois de tudo o que você narrou, eu me pergunto: como é que um cara desses foi eleito?! Se foi eleito por uma massa acéfala (predominante em nosso Brasil), recuso-me a acreditar que a repercussão do projeto ganhe maiores proporções. Portanto aguarde, isso não vai incomodá-lo, e ele ainda vai ser reeleito...

Abraços!
Adriano Berger

Silvana Destro disse...

Adriano, show de bola o seu comentário, como sempre. Concordo em gênero, número e grau. Sobre o sutiã das meninas de seis anos, mais irresponsáveis são as mães, que não se manifestaram; muitas até compraram e estimulam nas filhas essa precoce sexualidade. Essas sim, um bando de psicóticas irrecuperáveis. quanto ao Netinho, eu também não tenho dúvida sobre sua reeleição; temo muito pela prefeitura de SP, seu alvo principal. Depois de Kassab, um tipo como Netinho jogaria a pá de cal para enterrar de vez a dignidade dessa cidade. Abs

Paulo Tuba disse...

É possível assinalar casos e situações que sejam "corretas" no ponto de vista deste blog?
Criticar é sempre muito fácil, principalmente para quem tem apenas um papel passivo perante os acontecimentos.
O óbvio sempre aparece quando a coisa já está feita. Mas para a maioria das pessoas que criticam fica mais fácil depois de qualquer coisa ser feita.

Paulo Tuba disse...

*critica